Tinha seus 102 anos lúcidos e bem vividos. Quando mais jovem era uma grande atriz da época dos musicais. Agora acompanhava as brincadeiras dos bisnetos, sempre sorridente na cadeira de balanço. Era muito querida pelos familiares e amigos. Gostava muito das tardes de inverno, pois é quando o céu ficava mais enigmático e inconstante, mudando suas cores a cada pequeno instante.
Domingo, 12 de Abril de 2009
Tardes de inverno
Sábado, 21 de Fevereiro de 2009
Ônibus
Andava aflito. Apesar do peso dos livros na mão e da mochila, apressou o passo. Avistou o ônibus. Correu. Mas quando chegou o ônibus já havia partido. Olhou em volta. A rua deserta. Olhou para o relógio. Era tarde. Pensou.
- Puta merda.
- Puta merda.
Sábado, 14 de Fevereiro de 2009
Divagações etílicas
Num sábado desse, junto com alguns amigos, fizemos a velha discussão filosófica, tentando, talvez, salvar-nos da ignorância e do conformismo de nossas vidas. Nos reunimos em qualquer lugar desses: numa lanchonete, na universidade ou em qualquer buraco que tenha umas cadeiras pra gente se sentar e reclamar que estamos com os ouvidos cansados de tantas confidências, de tantas histórias, de tantos papos sobre a tristezas e felicidades (i)lícitas, experiências, amarguras e experiências alheias. Todos nós engolimos tudo isso como quem engole um dogma religioso: ou engole ou pedra! (ainda bem que passamos do tempo da fogueira!).
São ditas algumas frases idiotas, algumas frases de efeito e algumas frases de silêncio. É quebrado pela frase: "Eu gosto tanto de parafusos...". E rimos, rimos até perder o fôlego. E assim vamos contando as nossas (divinas) comédias de nossas vidas.
Retornamos aos assuntos ruins, que nos incomoda: as nossas dores. Mais uma vez silêncio. Mais uma vez quebrado. A dor, para mim, não existe. Ela é a existência.
São ditas algumas frases idiotas, algumas frases de efeito e algumas frases de silêncio. É quebrado pela frase: "Eu gosto tanto de parafusos...". E rimos, rimos até perder o fôlego. E assim vamos contando as nossas (divinas) comédias de nossas vidas.
Retornamos aos assuntos ruins, que nos incomoda: as nossas dores. Mais uma vez silêncio. Mais uma vez quebrado. A dor, para mim, não existe. Ela é a existência.
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
Bem-te-vi
Era tarde da madrugada. Caía um pequeno chuvisco sobre o asfalto da movimentada avenida. Observava os carros, solitários, passarem, um a um. As poças d'água refletiam os anúncios em neon. Sentindo e tateando a brisa gelada da madrugada, enquanto todos dormiam e eu infelizmente não, escutei quase como um grito: "bem te vi". O pássaro berrava a plenos pulmões. Escondido entre a penumbra e o farfalhar das folhas da velha castanholeira, gritava e se anunciava como quisesse que eu me levantasse da rede e fosse conversar com ele, entre os momentos (meus e seus) de vazios silenciados. A noite, razoavelmente fria, enchia-me de idéias. Bem-te-vi, bem-te-vi... Tu cantas, não sei se por alegria ou tristeza, se de sábio ou se de importuno (quem sabe?). Teu último grito não sei se de cansaço ou decepção. Foste embora, mas teu canto insone ainda me encanta... Pobre bem-te-vi, se vieste para pedir-me um verso, perdoa-me, que não sou mais poeta..
Sábado, 17 de Janeiro de 2009
Injúria

Levantou-se lentamente, foi ao banheiro e lavou o rosto. Era um homem acabado. Tomou um gole de café e acendeu o cigarro, ritual que mantinha há 7 anos. Olhou pela janela: a cidade estava diferente, um ar de melancolia baixava sobre a região. O suor descia-lhe pelo rosto. Olhava para algo distante e ignoto. Enxugou o suor com a blusa e foi descendo os vários degraus. Quando chegou ao fim, enxugou mais uma vez o suor do rosto e todos passavam em sua frente: alguns ignoravam-no, outros persistiam naquele mesmo olhar cruel e escarninho. Atravessou a avenida de carros e pedestre agoniados, logo em seguida pegou o ônibus e foi à casa dos avós. A casa estava alegre e com muito barulho. Talvez seus filhos estivessem lá. Apertou a campainha e não se escutou nada mais do que o silêncio da indiferença. Tentou uma outra vez, mas foi em vão. Os olhos ainda molhados de lágrimas transbordaram-se de pura vulnerabilidade e insegurança. Eles não querem ver. Saiu, mais uma vez, morto pelo fracasso. Voltou para sua casa, um apartamento barato, no 15º andar e olhou para dentro do imóvel: tudo tão perfeitamente organizado, mas nada daquilo era sua vida. Era um homem de plástico, vulnerável e fraco, rodeado de flores de vidro e fotos antigas, que alimentavam mais uma fraqueza do seu ser. Injuriado, chorou ainda mais, emudeceu e indignou-se. Ia quebrando cada porta-retrato, cada jarro de plástico como ele. Um a um, para que não sobrasse nenhum resquício de que ele estava vivendo. Sentou-se à mesa e baixou a cabeça. Toda vida que permitiu-se feliz, lembrava-se atordoado do sonho e carregava o incontestável peso da injustiça. Não era o que diziam ser. Não havia feito nada. Não havia dito nada. Mais um gole de café, mais um cigarro...
(Ilustração: "Injúria", de José Vitor Andrade)
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